Tuesday, April 14, 2015

acerca de espigais azulados.

 ...onde nuvens e céus de azul, um "azul rouco" grave,
fazem de ti o que tentas adormecer, num silêncio que borbulha. 
...expelindo em borbotões o desapego da memória.
docemente enlevado, esse pedaço de azulácea frescura.
um azul sussurrante de tão gritante que é. 
sentido lenitivo.
cores amenas - contraste com o sussurro do azul, 
adoçicando o espírito,
quando o suspiro fica suspenso e o amanhã não existe. 
hoje o tempo perdura assim, 
azul e grave, 
de uma rouquidão ambígua, 
pendente nesse tempo tão individual. 
numa viagem odeada pela iminência do agora.
numa respiração anelante, aquela que sopra brandamente. 
como que sinónimo da própria existência, o lugar do azul pingente. 
o lugar que é só nosso, 
de cada um. 
aqui e agora.

Mora Abril'15



Tuesday, April 7, 2015

A mentalidade da carne

 Num período da minha vida, em que voltei a comer carne, deparei-me com esta TED talk bastante acessível e interessante... E, aplicando estas palavras de Voltaire a muitas outras coisas,
 "If we believe absurdities, we shall commit atrocities..."


Tuesday, February 24, 2015

o Amor tem...

O Amor tem de fazer cócegas.
Sempre.
Ainda que passado tempo e tempos, possa ficar mais morno e aconchegante, como uma "manta no sofá".
Ainda que o conforto traga a calma e a certeza próxima do companheirismo, da cumplicidade de quem já vive por cá. No nosso coração.
Na impermanência de tudo, de cada instante, de cada momento respirado, o conforto é rei, mas as cócegas querem-se sempre. O burburinho de quem suspira quando vê o outro chegar. Quando o vê entrar depois de se ausentar, ainda que diariamente, na rotina da vida a dois, da vida de cada um.
O Amor quer-se tesudo, sempre. Quer-se romântico e confortável. Quer-se existente, permanente, mesmo na ausência.
O Amor quer-se quente e fogoso, mesmo depois de anos, de meses, de dias. De horas. Querem-se horas que queimem bem, cuja digestão seja saborosa e cujo metabolismo esteja equilibrado, ainda que umas vezes melhor, outras mais lento.
O Amor quer-se aqui e agora, por mais anos que passem, por mais horas que sussurrem no coração de quem por cá anda.
O Amor quer-se permanente na certeza na impermanência. Na certeza da incerteza, na certeza de que não se sabe se amanhã continuamos juntos.
O Amor quer-se vivo e com brisas que arrefeçam a monotonia dos dias, dos acordares rápidos, lentos, esquecidos ou apressados.
O Amor quer-se capaz. Capaz de amar ainda mais, de sorrir e cambalear de paixão e emoção a cada história que passa, a cada capítulo construído. A cada página em branco que se vai preenchendo. Inebriante e sussurrante. De encantar, por encantar, em constante deleite.
O Amor quer-se contínuo e crescente, como que livro por acabar, cujas sequelas parecem infindáveis, cujos capítulos parecem preceder a algo sempre por preencher.
Por mais aconchegante que o tempo reconforte o Amor, este quer-se em lume brando, mesmo quando queima e dilacera bons momentos, inimagináveis. Mas que não se apague nem se mantenha em banho maria, mesmo quando brando. Que aqueça sempre. E que restaure.
O Amor quer-se sempre. E em tudo. Permamente na impermanência.

Mora
Fev. 2015


Friday, February 20, 2015

"as aparências apagaram-se"

Almonds Blossom, V. Van Gogh

 A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"


Wednesday, February 18, 2015

contos de fadas.

Agnieszka Szuba

"If you want your children to be intelligent, read them fairy tales.
If you want them to be very intelligent, read them more fairy tales."

Albert Einstein

Tuesday, February 10, 2015

atravessas...

atravessas o ermo,
junto àquele rio de cor de peixe,
onde escamas reluzem à sombra
do mais celestial brilho soalheiro
que o teu sorriso provoca ao acordar.

ei-lo, por fim. esse reluzir quase que fresco
de tanta brisa o percorrer,
com a suavidade de semear o amanhecer,
esse acordar, tão terno e aconchegante.

e com os primeiros raios que sorriem
pelos ramos das sombras brincalhonas,
com o sussurrar do vento de norte
que irrompe sem sequer se fazer notar,
até que acordas desse sono constante
de ternura e cafunés ao adormecer.

atravessas o sorriso
do mais discreto acordar,
do sono leve e profundo de quem
se deixou aconchegar,
de quem se escapou à insónia perturbante,
outrora vivida, agora distante.

sorris e fazes sorrir,
no terno abraço
desse corpo,
reluzente e ofuscante,
da cumplicidade deste mar ondulante.
 
Mora
 09-02-2015

Thursday, January 29, 2015

acontece a.

Por entre paredes
e ares saturados,
no sal permeável da tua vivência,
molda-se o ajuste ao apoio de afecto
que irrompe no receio de menos um dia.

quando acontece,
surge brusca e de repente,
inesperado o anúncio da mudança.
fazem-se escolhas, ainda que por instinto,
sobrecarregam-se expectativas e frustram-se receios.
reconstroem-se ideias e teorizam-se acções,
remexem-se emoções e digerem-se anseios.

um dia acontece,
um dia aparece,
um dia parece que não é dia
e o medo acontece.

acontece a morte,
daquela que foi a vida,
do que é viver
e saber que se está a morrer.

todos os dias.
 Mora' Janeiro 2015




Thursday, January 22, 2015

olhar para nós de fora.

«… é como olhar para dentro de nós mesmos com os olhos dos outros (…).”, encontrei este comentário a propósito de uma crítica cinematográfica. E achei-a magnífica.

Às vezes precisávamos mesmo de conseguir colocar esta lente. Olhar para dentro de nós com o distanciamento que só os outros o conseguem fazer (e, por vezes, nem sempre é possível com pessoas próximas do nosso coração…). Precisamos, acima de tudo, de olhar para dentro. Passamos grande parte da nossa vida a olhar de dentro para fora. E de dentro do nosso umbigo para fora, para os umbigos dos outros. Olhamos mas não vemos, andamos mas estagnamos, avançamos mas parecemos recuar, enfim, uma série de acções que poderíamos considerar de avant qualquer coisa, mas que, na prática, só servem para nos fazer ter de dar mais passos e, muitas vezes, andar às voltas e voltas e voltas…  

Não chegamos aos sítios que queremos, verdadeiramente, por andarmos sempre à volta daquilo que achamos que queremos. Não caminhamos nem percorremos, antes corremos. Passamos a vida a correr, daqui para ali, dali para acolá, de acolá para cá. E os sussurros internos passam despercebidos, umas vezes mais, outras menos. Ouvimos sinais mas fingimos que não. Sentimos sintomas mas fingimos que não. Corremos e achamos que só assim vale a pena viver. De um lado para o outro, numa correria cheia de adrenalina e apertos. Numa correria que, se antes gostávamos e até nem encontrávamos outra forma de estar, depois torna-se um ciclo do qual nos custa despegar, e já somos, ainda que já seja altura de parar, olhar e ver. “Quem corre por gosto não cansa”, mas cansa andar sempre a correr. Correr para fora, para longe… Quando aquilo que mais precisávamos era de dar um passo de cada vez e para dentro. Dentro de nós, não do nosso ego. E passamos a vida nisto. A confundir egos e vontades, a servir pretextos e desculpas, a afastarmo-nos de nós próprios em prol de qualquer justificação que a mente consiga arranjar. “A mente mente monumentalmente.” E quando queremos, somos óptimos a mentir a nós próprios, sob qualquer necessidade/vontade. Há que escutar... o que vem de dentro, mas mesmo de dentro e não à superfície. Servir o ego pode saber bem, mas dura pouco e só produz algo parecido a ilusão, em sânscrito poderia dizer-se “maya”. É infrutífero. A caminhada diária passa, precisamente, por conseguirmos descolarmo-nos da ideia de nós próprios, dessa auto-imagem que tanto tem de ilusória como de estéril. Termina rápido ou não, até podemos passar a vida agarrados a essa mesma máscara e nem sequer conseguir despi-la. 

E do que sinto podermos sentir/experimentar, quando – ainda que seja por breves instantes - nos conseguimos descolar do ego e vivenciar a humildade genuína da nossa essência, do nosso ser, experimentamos algo quase que mágico. E não deveria sê-lo. Deveria ser o nosso estado natural, mas com tantos estímulos ao nosso redor, torna-se tarefa árdua combater o nosso próprio ego. É uma dança necessária, uma dança que se faz a cada segundo, por mais antagónico que possa parecer: ser o mais natural possível, estando sempre consciente de nós próprios e contrariar as vontades mais egóicas (umas vezes tão primitivas, outras tantas vezes tão rebuscadas!). E longe de que este tom possa insinuar alguma superioridade ou dualidade acentuada, de todo. Falo, essencialmente, para mim. Como fazemos a maioria das vezes, ainda que achemos que falamos para os outros. 

Definitivamente, precisamos de fazer mais silêncio para conseguirmos ouvir (a nós e aos outros) e para conseguirmos comunicar melhor connosco e com o que nos rodeia. Parar, observar, escutar e sentir. Sentir e unir corpo e mente. Encontrar uma forma harmoniosa de nos conhecer e viver.




Tuesday, January 6, 2015

aqueles: eles e nós.

Uma amiga enviou-me uma bela mensagem nesta altura de Natal e entrada no novo ano. E gostei tanto deste excerto que não resisti em partilhar. Obrigada, Maria José.
 
"Aqueles que passam por nós,
não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
levam um pouco de nós."

Antoine de Saint Exupéry
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