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Thursday, March 15, 2012

Ela falava, falava, falava.

"Ela falava, e falava, e falava, e falava. Falava pelos cotovelos. E continuava a falar. Eu sou a dona da casa. Mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indemnização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. Enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro."

Max Aub, in "Crimes Exemplares"



Wednesday, January 18, 2012

A simetria de Russell Edson.


O privilégio de se contar estórias, de se trabalhar entre letras e com letras, são os nomes que nos chegam, todos os dias. Uns mais anónimos que outros.
Depois de Daniil Harms, eis Russell Edson. 


SIMETRIA



Havia um homem que se sentia atraído por contrabaixos
porque lhe faziam lembrar mulheres nuas com peitos
envernizados.
Têm o tipo de ancas, dizia, que levam os homens
à loucura.
Obviamente que não se importava que, por razões de
simetria, as mulheres lhe fizessem lembrar contrabaixos nus.
Delas dizia, também têm o tipo de ancas que levam
os homens à loucura.
Uma vez pediu a uma mulher para ser o instrumento da
sua música.
Ela respondeu, está a brincar, por quem me toma, algum
contrabaixo?…



Foto: Frances Edson
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