Tuesday, February 10, 2015

atravessas...

atravessas o ermo,
junto àquele rio de cor de peixe,
onde escamas reluzem à sombra
do mais celestial brilho soalheiro
que o teu sorriso provoca ao acordar.

ei-lo, por fim. esse reluzir quase que fresco
de tanta brisa o percorrer,
com a suavidade de semear o amanhecer,
esse acordar, tão terno e aconchegante.

e com os primeiros raios que sorriem
pelos ramos das sombras brincalhonas,
com o sussurrar do vento de norte
que irrompe sem sequer se fazer notar,
até que acordas desse sono constante
de ternura e cafunés ao adormecer.

atravessas o sorriso
do mais discreto acordar,
do sono leve e profundo de quem
se deixou aconchegar,
de quem se escapou à insónia perturbante,
outrora vivida, agora distante.

sorris e fazes sorrir,
no terno abraço
desse corpo,
reluzente e ofuscante,
da cumplicidade deste mar ondulante.
 
Mora
 09-02-2015

Thursday, January 29, 2015

acontece a.

Por entre paredes
e ares saturados,
no sal permeável da tua vivência,
molda-se o ajuste ao apoio de afecto
que irrompe no receio de menos um dia.

quando acontece,
surge brusca e de repente,
inesperado o anúncio da mudança.
fazem-se escolhas, ainda que por instinto,
sobrecarregam-se expectativas e frustram-se receios.
reconstroem-se ideias e teorizam-se acções,
remexem-se emoções e digerem-se anseios.

um dia acontece,
um dia aparece,
um dia parece que não é dia
e o medo acontece.

acontece a morte,
daquela que foi a vida,
do que é viver
e saber que se está a morrer.

todos os dias.
 Mora' Janeiro 2015




Thursday, January 22, 2015

olhar para nós de fora.

«… é como olhar para dentro de nós mesmos com os olhos dos outros (…).”, encontrei este comentário a propósito de uma crítica cinematográfica. E achei-a magnífica.

Às vezes precisávamos mesmo de conseguir colocar esta lente. Olhar para dentro de nós com o distanciamento que só os outros o conseguem fazer (e, por vezes, nem sempre é possível com pessoas próximas do nosso coração…). Precisamos, acima de tudo, de olhar para dentro. Passamos grande parte da nossa vida a olhar de dentro para fora. E de dentro do nosso umbigo para fora, para os umbigos dos outros. Olhamos mas não vemos, andamos mas estagnamos, avançamos mas parecemos recuar, enfim, uma série de acções que poderíamos considerar de avant qualquer coisa, mas que, na prática, só servem para nos fazer ter de dar mais passos e, muitas vezes, andar às voltas e voltas e voltas…  

Não chegamos aos sítios que queremos, verdadeiramente, por andarmos sempre à volta daquilo que achamos que queremos. Não caminhamos nem percorremos, antes corremos. Passamos a vida a correr, daqui para ali, dali para acolá, de acolá para cá. E os sussurros internos passam despercebidos, umas vezes mais, outras menos. Ouvimos sinais mas fingimos que não. Sentimos sintomas mas fingimos que não. Corremos e achamos que só assim vale a pena viver. De um lado para o outro, numa correria cheia de adrenalina e apertos. Numa correria que, se antes gostávamos e até nem encontrávamos outra forma de estar, depois torna-se um ciclo do qual nos custa despegar, e já somos, ainda que já seja altura de parar, olhar e ver. “Quem corre por gosto não cansa”, mas cansa andar sempre a correr. Correr para fora, para longe… Quando aquilo que mais precisávamos era de dar um passo de cada vez e para dentro. Dentro de nós, não do nosso ego. E passamos a vida nisto. A confundir egos e vontades, a servir pretextos e desculpas, a afastarmo-nos de nós próprios em prol de qualquer justificação que a mente consiga arranjar. “A mente mente monumentalmente.” E quando queremos, somos óptimos a mentir a nós próprios, sob qualquer necessidade/vontade. Há que escutar... o que vem de dentro, mas mesmo de dentro e não à superfície. Servir o ego pode saber bem, mas dura pouco e só produz algo parecido a ilusão, em sânscrito poderia dizer-se “maya”. É infrutífero. A caminhada diária passa, precisamente, por conseguirmos descolarmo-nos da ideia de nós próprios, dessa auto-imagem que tanto tem de ilusória como de estéril. Termina rápido ou não, até podemos passar a vida agarrados a essa mesma máscara e nem sequer conseguir despi-la. 

E do que sinto podermos sentir/experimentar, quando – ainda que seja por breves instantes - nos conseguimos descolar do ego e vivenciar a humildade genuína da nossa essência, do nosso ser, experimentamos algo quase que mágico. E não deveria sê-lo. Deveria ser o nosso estado natural, mas com tantos estímulos ao nosso redor, torna-se tarefa árdua combater o nosso próprio ego. É uma dança necessária, uma dança que se faz a cada segundo, por mais antagónico que possa parecer: ser o mais natural possível, estando sempre consciente de nós próprios e contrariar as vontades mais egóicas (umas vezes tão primitivas, outras tantas vezes tão rebuscadas!). E longe de que este tom possa insinuar alguma superioridade ou dualidade acentuada, de todo. Falo, essencialmente, para mim. Como fazemos a maioria das vezes, ainda que achemos que falamos para os outros. 

Definitivamente, precisamos de fazer mais silêncio para conseguirmos ouvir (a nós e aos outros) e para conseguirmos comunicar melhor connosco e com o que nos rodeia. Parar, observar, escutar e sentir. Sentir e unir corpo e mente. Encontrar uma forma harmoniosa de nos conhecer e viver.




Tuesday, January 6, 2015

aqueles: eles e nós.

Uma amiga enviou-me uma bela mensagem nesta altura de Natal e entrada no novo ano. E gostei tanto deste excerto que não resisti em partilhar. Obrigada, Maria José.
 
"Aqueles que passam por nós,
não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
levam um pouco de nós."

Antoine de Saint Exupéry

Thursday, December 18, 2014

gato.

Gato



Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

Friday, November 28, 2014

"rega as tuas plantas"

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra

De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.


Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


(Ricardo Reis)

Wednesday, November 26, 2014

conhecimento 1 - ego 0

E, a propósito de um texto de um amiga, sobre a espiritualidade em cada um de nós, cheguei a esta bela frase do Einstein:


Friday, November 21, 2014

fugir do que mais se precisa.



Desafio: o que é?

desafio | s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de desafiar

de·sa·fi·o 
substantivo masculino
1. Acto de desafiar.
2. Provocação.
3. Porfia.
4. Despique.
5. Jogo, peleja, partida.
6. [Brasil]  Folguedo sertanejo em que se canta e dança ao desafio.

"desafio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/desafio [consultado em 21-11-2014].

O YOGA, no seu sentido mais lato, pode ser muita coisa, entre uma forma de estar e de viver mais disponível, consciente e desperta. De mente e coração abertos, um caminho de auto-conhecimento para quem “não tem pressas”, como costuma uma amiga inspiradora. Pode ser um desafio constante e arrisco-me a dizer que deverá sempre sê-lo (como tanta coisa na vida!), se nunca perdermos a humildade em querer aprender mais e a conhecermo-nos um bocadinho melhor. 

O denominado HATHA YOGA, que usa o corpo como o veículo para atingir outro estado, quiçá, uma determinada elevação espiritual que visa a união entre mente e corpo (tantas vezes tão distante, dado tantos estímulos nos tempos velozes que vivemos) compreende técnicas como a prática de asana (posturas físicas), pranayama (exercícios de respiração) e krya (exercícios de purificação dos órgãos/corpo). No Ocidente, e porque a palavra “Yoga” se banalizou de tal maneira a que se confunda e limite a origem da mesma à prática de um conjunto de exercícios físicos, por vezes, nem sempre é fácil conseguir desconstruir essa mesma ideia. Como tal, e pela proliferação da ideia do Yoga enquanto prática meramente física, à luz do Ocidente, há muito que se tornou “moda” adoptar-se técnicas de determinadas escolas, como que religião. O Yoga pode, sem dúvida, ser a nossa religião. Que o seja. Desde que consciente e humilde, sem fanatismos de outra ordem à mistura. Como tudo, em prol do equilíbrio e sem violentações de qualquer espécie (ou referindo um dos princípios éticos, em sânscrito, praticando a não-violência, “ahimsa”).
E, como em tudo na vida, tendemos a descobrir e experimentar as coisas e, depois, à medida da nossa aprendizagem, continuamos a percorrer o nosso caminho, para que a evolução aconteça e seja algo não estanque, preferencialmente. Como tudo que é impermanente, também o nosso estado perante as coisas o é.

É natural que quando iniciamos determinada caminhada, o façamos porque faz sentido para nós, com determinadas pessoas porque faz sentido para nós, em certo momento da nossa vida porque faz sentido para nós. Tudo porque algo faz sentido para nós, mas mesmo quando não o faz nesse preciso momento, ou seja, mesmo quando não percebemos o porquê, mas apenas sentimos que precisamos de o fazer, há um sentido nessa intenção, ainda que desconheçamos ou compreendamos a verdadeira essência do acto. Quando comecei o meu percurso com o meu antigo professor de yoga, fez e fazia todo o sentido. Aprendi muito com ele, gostava das aulas, inspirava-me, deixava-me a pensar... Foi uma pessoa que me introduziu ao Yoga de uma forma marcante, quer pelas práticas, quer pela própria personalidade. Mas, da mesma forma que vamos mudando durante a nossa vida, quer hábitos, quer comportamentos quando percebemos que está na altura, caso tenhamos energia e disponibilidade para tal (ainda que entre a percepção e a acção possa, por vezes, existir um grande hiato temporal), também nas nossas práticas pessoais, sentimos necessidade de mudar algo. Não significa que deixemos de gostar de X ou Y, neste caso, da pessoa em si. Da pessoa que nos inspirou, que nos marcou. Já somos nós a mudar internamente e o que numa altura fazia sentido, pode deixar de o fazer, ou simplesmente, podemos precisar de outra abordagem. Para que aquilo que julgamos ser a nossa aprendizagem possa continuar. E não há nada de errado com isso, desde que sejamos sinceros connosco, com o que sentimos. E, naturalmente, as coisas mudam perante as próprias mudanças em si, ou seja, há desafios, há novos códigos comportamentais, há novos processos a desenrolarem-se, há todo um novo mundo para descobrir e aprender a estar.

Quando se está habituado a práticas vigorosas, ou quando se passa vários anos a praticar num determinado registo, é natural que quando confrontados com outro género/estilo de prática, nos sejam colocados alguns desafios. Também as reacções vão variar em função da pessoa. Uns ficarão entusiasmados em experimentar outra coisa, outros ficarão reticentes, outros poderão mesmo sentir-se desconfortáveis e questionar o que estarão ali a fazer. Quando orientava aulas para crianças, nunca me foi perguntado em momento algum que “estilo/género” de Yoga praticava. Isso mudou quando passei a dar aulas a adultos. Tal como em tudo na vida, quando crescemos, aprendemos a usar filtros (e tantas vezes lá vai o imaginário!) em muitos aspectos da nossa vida. Esses mesmos filtros que nos protegem em muitas situações, também nos limitam as experiências, e se só conseguirmos ver a vida através deles e nunca os mudarmos podem impedir a nossa (tão necessária!) adaptação. Com a minha amiga inspiradora e actual professora de Yoga tenho aprendido muita coisa e estou, constantemente, a ser desafiada. E além da prática e das aulas, durante o curso que continuo a fazer com ela, além da aprendizagem contínua, os momentos acabam por se transformar em reflexões que nos acompanham porta fora. Quando, agora, me perguntam que género de yoga pratico ou oriento, deixo as pessoas falar e depois respondo apenas, “Hatha yoga”. Esta necessidade de engavetar tudo é muito cultural, demasiado ocidental, até, mas acima de tudo, acaba por ser típico do ser humano. Perante perguntas deste género, a partir do momento em que se responde “Hatha” yoga, além de nos salvaguardarmo-nos, rejeitamos subtilmente a discussão acerca dos géneros e tipos de Yoga que percorrem o mundo, uma vez que HATHA engloba qualquer espécie praticada. É o yoga do corpo. Curiosamente, são as pessoas que perguntam este género de coisas, que não chegam a perceber a resposta. Pensam que “hatha yoga” é mais outro estilo.

Infelizmente, imensos praticantes desvalorizam toda e qualquer prática que não seja vigorosa. É impressionante como nós fugimos daquilo que mais precisamos. Como sabemos tão bem na teoria e na prática, mas nem sempre o conseguimos reconhecer, admitir e aceitar...! Contra mim falo, que até há pouco tempo, também me custavam as aulas mais meditativas e se não fizesse uma prática mais power, parecia não sentir que estivesse a praticar verdadeiramente (o que quer que isso fosse e que eu lhe chamava yoga! Também o é, mas Yoga não se resume a encaixar asanas um atrás dos outros…). Lá está, o asana é apenas UMA das técnicas contempladas pelo Yoga. E o pranayama? Os kryas? São outras técnicas do HATHA yoga que, como já referido acima, é o yoga do corpo. Compreendo os argumentos da necessidade do esforço e auto-superação como máximas de determinadas escolas que nada mais fazem do que interpretar e reproduzir o que apreenderam do Oriente. Mas, como todas as interpretações e adaptações, sofrem sempre alterações e respondem, acima de tudo, às necessidades e ambientes onde se instalam. E, claramente, que não podemos comparar os estímulos e locais onde vivemos aos do Oriente mas, rejeitar agressivamente um desafio como por exemplo, uma prática mais meditativa em prol do equilíbrio, por estarmos habituados a suar durante uma sequência de asanas, parece-me ser tudo menos yoga. Yoga não é marketing, nem apenas suor. Tentar pôr a mente a suar parece-me mais árduo do que o corpo.
O desafio é sempre algo que nos retira da zona de conforto. E, atrever-me-ia a dizer que quando os resultados não são tão imediatos, quando parecem mais invisíveis aos olhos e mais próximos do coração e do espírito (ou de algo que lhe possam preferir chamar), o ser humano tende a fugir deles. Apesar de sermos emoções e sensações, valorizamos demasiadamente a vista e o ego. O nosso umbigo gosta de ver, preferencialmente, tudo o que apareça mais rapidamente. Temos muita pressa por aqui. E o yoga não é, definitivamente, para quem tem pressa.


Tuesday, November 11, 2014

hay que...

"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás."
(Che Guevara)

Foto: Gregory Colbert

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