Para quem sabe que precisa de... :
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
M.Cesariny [Pena Capital, 1957]
Para qualquer hora sem hora marcada. Um espaço pessoal e de partilha variada. Com deambulações poéticas pelo meio e todo o género de afins. Desentorpecid(a)mente.
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Monday, December 13, 2010
you are welcome to Elsinore.
Tuesday, November 27, 2007
"Comunicação"

Fez ontem um ano que o brilhante Cesariny nos deixou.
E deixou-nos uma valiosa arca de palavras ritmadas em danças poéticas, que só ele sabia coreografar.
Até sempre, Cesariny. *
Nesta ilusão iludi-me.
A hora da vida já
Soltou uma gargalhada
E saiu pela janela.
.....................................
O automóvel verde
Vestido de lilás.
...................................
Fiz da vida ida.
Fiz da morte volta
Gága, gága, gága.
Fiz de pedra tudo.
(Alexandre O'Neill, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Mário de Sá Carneiro, Pedro Oom)
Tags:
Mário Cesariny,
poesia surrealista
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